viernes, 26 de febrero de 2021

Roberto Rutigliano (música)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

 

O Neo Primitivo.

 

O conceito.

 

O Neo Primitivo propõe uma valorização das culturas ancestrais.

O propósito de colocar no papel o que é o Neo Primitivo está relacionado com cristalizar uma ideia. É algo que define um caminho, que descreve uma escolha estética.

O fato de colocar esta ideia em forma de ensaio supõe a elaboração detalhada de uma série de princípios que ajudem a descrever as finalidades que esta proposta sugere.

Os surrealistas colocaram no seu manifesto que o poder criativo (o impulso) seria o principal alvo que uma arte deveria seguir, Leon Trotsky almejava uma arte livre e verdadeira. A Bossa Nova tentou se situar na música mundial como um samba interpretado de forma mais suave, com outras harmonias e novas composições.

A pintura num momento privilegiou ser naturalista, em outro momento preferiu abstrações.

 O Neo Primitivo seria uma resignificação do primitivo, o primitivo entendido como o ancestral, o fundamento, o primordial.

A propósito do que constitui o Neo Primitivo, existe um provérbio Iorubá (Ioruba) que diz que a tradição se não se renova está condenada ao esquecimento e o novo se não está inserido numa tradição não tem fundamento.

O Neo Primitivo basicamente se define como um movimento que valoriza a atualização da arte africana e ameríndia que se desenvolveu no continente americano e que tem desdobramentos fundamentalmente na música, na pintura, na escultura e no cinema.

Também o Neo Primitivo abarca os mitos da antiguidade grega, árabe ou oriental, os ambientes onde prima o natural e toda arte que nos remete ao passado remoto ou a um mundo “pré-civilizado”. 

 

 

As diferentes interpretações do conceito de Primitivismo.

 

O sentido do Primitivo em Heidegger.     

Para o filosofo alemão o Primitivo é o primordial; a fonte onde o ente experimenta toda a grandeza de seu Ser, grandeza que jamais voltará a experimentar uma vez fora.

O Primitivo reside em todo ente, em todo Povo e é o que constitui a sua essência. O mais tocante é que o Primitivo é a riqueza que mais originariamente emerge em meio à rusticidade do existir.

É uma arrogância de ignorantes tomar as formas mais ingênuas e rústicas da existência como pobres, no sentido do desprovido de linhagem. Nessas formas a linhagem é direta, é a mais alta linhagem. Para o Grego antigo a descendência mais nobre se enraizava nos Deuses – Ser filho de um Rio, de um Astro celeste, da Terra constituía a máxima nobreza. E cabia ao nobre mostrar seu grau de nobreza por seus feitos heroicos na luta civilizatória em prol do engrandecimento de sua pequena tribo. Assim foi com Teseu, filho legítimo de Posídon, com Herácles, filho de Zeus.

Heidegger entende que o processo histórico de crescimento do antropomorfismo nos levou a perder o rastro do essencial.

As formas desvirtuadas de ver o Primitivo segundo Ramon Torres Zayas.

 

Corresponde esclarecer como o termo “primitivo” é usado muitas vezes de forma pejorativa e paternalista.

Vamos a expor agora as observações do estudioso cubano Ramon Torres Zayas que prefere não usar o termo “primitivismo”: Compreendo perfeitamente o critério de Heidegger sobre sua percepção e reivindicação do "primitivismo" e concordo com ele, só que teríamos que posicionar o termo entre determinados grupos de poder, porque outros autores (e nisso me incluo) seguem pensando que o termo tem um conteúdo pejorativo, o primitivo seria algo que há que civilizá-lo. Faz muito tempo se discutia isso dentro do campo das artes, creio que pelos anos 20-30 do passado século, sobre se os povos "primitivos" tinham poesia, o se a modernidade está deixando de ser poética porque os verdadeiros poetas (pelo uso das metáforas) tinham maiores possibilidades em etapas "arcaicas" (que é como prefiro chamá-las, porque isso de primitivo segue sem ser do meu agrado).

Em fim, o que estou tentando expressar é que o vocábulo há servido para justificar a dominação/conquista, porque com a teoria da tabula rasa proposta pela Ilustração só se pretendia "domesticar" e "civilizar" ao "bom selvagem", canibal e "primitivo". Isso da tabula rasa faz referencia a tese epistemológica de que cada individuo nasce com a mente vazia como um "papel em branco". Isto lhe serviu a Europa para demonstrar que nossos "indiozinhos” eram bons, e por bons "sem cultura". Os que ofereciam resistência então eram canibais, em outras palavras, outra manifestação mais atrasada e primitiva ainda. Como o "papel estava em branco", tinha que se escrever sobre eles que, metaforicamente, seria aproximar eles à "civilização". Insisto então em defender a ideia de que o vocábulo “primitivo” não teria que ser usado, inclusive para defender o próprio primitivo, ao menos para estes tempos.

Seguindo com o raciocínio: o movimento primitivista pode ser válido para o setor da música e a arte em general. Embora, o termo tenha sido tão mal levado e traído por que desde a Antropologia, a Filosofia, a Sociologia, entre outras disciplinas se tem certa reserva com o vocábulo, toda vez que ha servido como marca discriminatória e seletiva que designa o primitivo/atrasado/barbárie, em oposição com a ideia de civilização. Entendo que usando palavras como "culturas ancestrais", "primogênitas" ou "arcaicas" seriam termos mais felizes. Eu me inclino pelas duas últimas, pois nem necessariamente todo o arcaico há de ser ancestral e sim antigo.

A questão do “Primitivo” ao longo dos anos.


Existe uma discussão na qual reverbera todo este conceito do Neo Primitivo que nos remete ao Brasil do começo do século XX. Na semana de arte moderna que aconteceu em São Paulo em 1922, um dos principais temas que foram abordados foi a questão da busca pelas raízes brasileiras e o enfrentamento com o academicismo europeu.

No Brasil no início do século XX, os jovens músicos brasileiros eruditos provocaram discussões e polemicas sobre a estética da música. E assim como nas outras artes, eles refletiam e afirmaram a proposta do Modernismo brasileiro, se aproximando cada vez mais da cultura popular.

Villa-Lobos, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e outros buscavam nas suas criações a mistura e o espelhamento na cultura popular brasileira principalmente nas de matriz africana e indígena, como elemento nacionalista e original. Esta tendência não pode ser confundida como uma valorização do elemento exótico, mas como a incorporação estética de uma musicalidade que ficou em segundo plano durante todo o tempo. Pensemos que assim como compositores brasileiros que utilizavam os tangos brasileiros e maxixes, como Ernesto Nazareth e Marcelo Tupinambá (pseudônimo de Fernando Alvarez) não eram aceitos facilmente pelas elites intelectuais da época. Hoje em dia esta situação perdura porque o arsenal de ritmos da tradição afro-brasileira e afro-cubana, por exemplo, são omitidos como se eles foram apenas algo que faz parte do passado ou como uma simples curiosidade estética. Em relação com a ideia de menosprezar os aportes da musicalidade popular no Brasil daquela época aponta José Miguel Wisnik:  “Seria desejável que os músicos brasileiros compreendessem a importância dos compositores de tangos, de maxixes, de sambas e de cateretês como Marcelo Tupinambá ou o genial Ernesto Nazareth.A riqueza rítmica, a fantasia indefinidamente renovada, a verve, a vivacidade, a invenção melódica de uma imaginação prodigiosa, que se encontra em cada obra desses dois mestres, fazem deles a glória e a preciosidade da Arte Brasileira” (WISNIK, 1977, p. 45).


https://youtu.be/zkYzeRaas2Q


Esta discussão chega aos dias de hoje quando se procura uma originalidade que possa se sobressair das influências europeias ou americanas e que, ao mesmo tempo consiga ter um discurso próprio.

A valorização do universo rítmico, tímbrico e melódico da cultura de matriz africana na América, poderão ser matrizes na quais esta originalidade se inspire.
Para que isso ocorra temos que entender que a relação entre a matéria-prima popular e uma arte elaborada não pode ser olhada como um enfrentamento excludente. Dentro de esta visão o músico Egberto Gismonti afirma que a manifestação artística original e intuitiva alimenta e inspira ao artista instruído. O diálogo entre as artes e o diálogo entre as culturas chamadas de popular e erudita, não pode ser uma guerra, ao contrário é um aprendizado de consolidação de ambas as fontes.
Assim, podemos observar a formação de uma arte genuinamente nacional inspirada em fontes ancestrais nos arranjos de Letieres Leite, na musicalidade de Mateus Aleluia, em alguns subgêneros do choro, na pintura de Carybé , de Ruben Valentín e em
outras tantas manifestações e diálogos que reforçam a cultura brasileira em todas suas facetas.


O manifesto Pau Brasil e o Antropófago.


Dando continuidade a esta discussão não se pode deixar de mencionar o papel dos pensadores da cultura brasileira: 
Mario e Oswald de Andrade.
No Brasil entre 1924 e 1928 Oswald de Andrade escreve o manifesto “Pau Brasil” e o manifesto “Antropófago”. A ideia era rechaçar a influência europeia, à cultura erudita e “engolir” a cultura do índio brasileiro, tido agora como símbolo do país.
A ideia surge  de um ambiente no qual Villa Lobos se inspira nos sons da Amazonas para compor obras como  Uirapuru e Tarsila de Amaral pinta ao índio brasileiro no seu
quadro Abaporu (isto ocorre entre 1928 e 1934).

Comer a cultura do índio e digeri-la supõe uma transformação. Nessa referência, aquilo que é comido, também é modificado. Em outras palavras a valorização da América “selvagem” diante da Europa “civilizada” apresenta aqui um índio renovado exposto a um curioso efeito futurista-conservador. A ideia seria fundar uma brasilidade um “nacionalismo não exótico”, uma inversão da subordinação entre a Europa e América.
A perspectiva assumida, no entanto, difere da habitual; já não se quer exportar, mas fazer como o canibal. Em outras palavras, não se desejaria mais vender produtos tropicais para a metrópole, mas devorar ao homem natural e projetar sua arte desde um novo lugar.
Em oposição a este conceito encontramos os grupos representados na figura de Graça Aranha, que também eram modernistas, mas que defenderam o academicismo francês. Eles argumentaram que a civilização sofreu aqui a modificação do meio americano e da presença nele de raças diversas. Consequentemente, a nacionalidade brasileira não passaria de um esboço, ainda pouco definido. Seriamos herdeiros da tradição europeia mais de que a cultura do homem bárbaro.

Oswald defende o seu lugar dizendo: “se escaparmos da cópia europeia não devemos permanecer na incultura. Ser brasileiro não significa ser bárbaro”.

Agora vamos citar alguns dos principais compositores de música de concerto que na época embarcaram neste projeto de encontrar inspiração na ancestralidade africana para criar obras realmente importantes.

Aqui podemos ouvir

 

Brasílio Itiberê II - Suíte Litúrgica Negra Suíte Litúrgica Negra

 1º mov. Xangô

https://youtu.be/PekW2Gv03ns

 

2 º movimento Ogum

 

https://youtu.be/n3urt4olDsk

 

3º movimento. O protetor Exu

 https://youtu.be/_1a_J_49A-s

 Alberto Nepomuceno “Batuque”. (1891)

 

https://youtu.be/0boDisvSjOU

 

 Heitor Villa Lobos “Danças africanas” (1916)

 

https://youtu.be/xykx7oRxHMw

 

Ernesto Nazaret “Xango” (1921)

 

https://youtu.be/sFlWX4VTpGo

 

Camargo Guarnieri (Dança Selvagem)

 

https://youtu.be/YXvr2PeIHDQ

 

Camargo Guarnieri (Dança Negra)

 

https://youtu.be/vWp14uYSzd4

 

A estética defendida pelo Mario de Andrade.

 




Em relação ao que Mario de Andrade pensa sobre a estética que teriam que ter os compositores brasileiros, ele diz: “O compositor brasileiro tem de se basear quer como documentação quer como inspiração no folclore. Este, em muitas manifestações caracteristiquissimo, demonstra as fontes donde nasceu. O compositor por isso não pode ser nem exclusivista nem unilateral. Se exclusivista se arrisca a fazer da obra dele um fenômeno falso e falsificador. E, sobretudo facilmente fatigante. Se unilateral, o artista vira antinacional: faz música ameríndia, africana, portuga ou europeia. Não faz música brasileira não”.

Mario de Andrade foi tal vez, o primeiro musicólogo brasileiro; foi também poeta e romancista. Mario de Andrade em Macunaíma conseguiu fundir o interesse no folclore brasileiro com um rigor formal que lembra em muito os esforços das vanguardas.
Oswald afirmava que: “somos os bárbaros tecnizados, dominamos a técnica do ocidente, mas não nos assumimos como o novo, que aponta para o futuro”.
Deixamos este tema relacionado com as questões levantadas
no começo do século XX para observar como estas ideias estão ainda em aberto e que muitas das discussões que foram levantadas nesses anos tem total atualidade.


A desvalorização do primitivo na história.


Estamos desenvolvendo a ideia de que existe um preconceito que não permite olhar para as manifestações populares como fontes de beleza que tem que ser combatido.
O primitivo muitas vezes é sinônimo de bárbaro, de incivilizado, de inculto ou de selvagem.

Esse preconceito gera quatro desvios: o primeiro por parte do academicismo é o de olhar para o primitivo como algo inferior e desprezível, isto gera também reproduções dos estereótipos racistas sobre povos não europeus usados ​​pelos europeus para justificar a conquista colonial.

O segundo  desvio é entender o primitivo como algo exótico. Como um antropólogo, como um cientista estuda os ritmos perdidos que se escutam numa ilha quase deserta no meio do oceano atlântico sem realmente olhar para aquilo de verdade, ao contrário para capturá-lo como se fosse um inseto raro e colocá-lo na sua prancheta para expor ele numa próxima bienal de ciências.
O terceiro é para se apropriar do primitivo e recoloca-lo na indústria cultural de forma palatável, sem a sua forma original e sem a presença dos protagonistas apropriados que teriam que ser referenciados.

O quarto desvio é se aproximar do primitivo com uma olhar paternal , querendo ajudar a se integrar ao mundo “civilizado”, mas não apreciando seus valores ou aprendendo da sua sabedoria.

Para exemplificar o primeiro caso (o da aversão) podemos citar ao escritor argentino Domingo Faustino Sarmiento no seu livro “Civilização e barbárie” (1874) no qual ele explora este tema de forma bem clara na ideia de que a civilização é rica, branca, europeia e a barbárie e africana, pobre e sem cultura.
Esta ideia de associar a cultura com o civilizado está presente de forma contundente em toda nossa história.
O segundo caso (o do exotismo) se vê claramente nas ideias que floresceram na França na metade do século XX quando, por exemplo, foi encarregado a Elsie Houston um estudo sobre a cultura brasileira. A França tinha acordado para as culturas exóticas do mundo no intuito de, de algum modo, rejuvenescer a sua própria cultura.
Foi encomendado então a Elsie Huston o registros de cantos da tradição afro-brasileira, este estudo foi publicado em Paris num livro histórico chamado Chants Populaires du Brésil [Cantos populares do Brasil] e as gravações foram registradas em discos de 78 rotações.
A ideia era boa, mas o episódio foi algo isolado e entendido como quem entediado procura raridades e não como quem realmente pretende se influenciar da riqueza de estas manifestações.
Este legado não foi incorporado ao universo acadêmico, à educação europeia nem a brasileira que, durante todos estes anos é uma imitação daquela, a aproximação foi apenas uma espécie de viagem a um país do trópico.

Aconteceu algo similar nos anos 40 quando por uma política de “boa vizinhança” os EE.UU enviam ao Rio de Janeiro a uma comitiva dirigida pelo regente Leopold Stokowski para a gravação do disco “Native Brazilian Music”. O evento reuniu num estúdio  montado num barco ancorado no Rio de Janeiro, alguns expoentes da música popular carioca como Donga, Pixinguinha e João da Baiana. Este disco nunca foi devidamente aproveitado para uma troca real musical ou uma aproximação que possa promover discussões sobre identidade nacional, diferença e resistência cultural.
O terceiro desvio acontece quando a indústria se apropria de uma manifestação cultural para manipulá-la e revende-la novamente no mercado como novidade.
Aconteceu com Carmen Miranda (fantasiada com um abacaxi na cabeça) representando a cultura brasileira em Holliwood , com Gardel (vestido de gaúcho) simulando ser o homem do Tango. O mesmo aconteceu com Piazzolla no disco “Take me Dancing” (no qual teve que incorporar sonoridades latinas para agradar aos produtores), passou com a Bossa Nova quando esta foi aceita na América a partir da leitura desfigurada de alguns jazzistas comerciais ou com o Samba oferecido a
ocidente como um atrativo musical erótico.
Este fenômeno de deformação do original para que consiga ser inserido no modelo aceito é de uma agressividade muito destruidora para a arte.


A apropriação de ritmos nativos como o Ijexá, o Maracatu, o Candombe ou o Baião que ficou na moda em alguns grupos sociais da Argentina ou de Brasil também pode ser considerado uma forma da apropriação porque a moda quase nunca inclui aos reais protagonistas e porque todo este movimento é na realidade reproduzido como um hobby passageiro ou uma distração social.

A quarta questão que citamos é a de ter uma postura paternalista. Quando falamos sobre este tema nos referimos a vários momentos, por exemplo, quantos mestres de Candomblé ou de bateria de uma Escola de Samba são convidados para dar palestras em universidades de música ou quantos músicos escolhem se aprofundar em estudar a musicalidade afro-brasileira em contato com o cotidiano destas tradições?

Quantos programas educativos tentam trazer os jovens talentos para a visibilidade da sociedade musical ao invés de ingressar nos seus territórios naturais para ensinar “música elaborada”.

Citamos aqui um texto publicado num trabalho acadêmico recente que justamente aborda toda esta temática chamado “Notas Negras, pautas brancas” que abre o dossiê : Matizes Africanos na Música Brasileira por Nina Graeff : “Ao  mesmo  tempo,  projetos  de  socialização musical de crianças e jovens de periferia através da música clássica, por mais bem intencionados e sucedidos que sejam em tirar crianças das ruas e evitar que se envolvam com o tráfico de drogas, promovem, por outro lado, a aprendizagem de instrumentos de orquestra inexistentes em seu cotidiano como único caminho de musicalização,  inculcando  valores  eurocêntricos  e  elitistas  nos  jovens , e pressupondo que estes não tenham sua própria arte e cultura”.
Ao contrário destas tendências a postura correta seria potencializar todas esta manifestação original e incorpora-las no sistema educativo e na experiência artística verdadeira.

A questão da pluralidade dos sotaques sonoros.

 


A valorização do primitivo também esta relacionado com as múltiplas possibilidades que nos oferece a música. Nos dias de hoje existe uma tendência no mundo inteiro de criar uma cultura que se estenda a todas as culturas no intuito de forjar uma música só para um público só.

Isto já foi denunciado no Manifesto Comunista por Marx e Engels em 1845 quando no primeiro capítulo mencionam que no Estado burguês a produção artística ganha um caráter global e perde individuação.

A questão da indústria cultural se estende aos filmes, os livros, a linguagem, a culinária, os refrigerantes, a arquitetura e a todas as manifestações populares que imaginamos. Não conseguimos mais saber qual é a musicalidade do interior da Argentina, ou de um subúrbio na Grécia porque a música que se escuta, as roupas que se usam, o tipo de bares que se abrem e as publicidades que aparecem na televisão são praticamente as mesmas. Este processo é uma das consequências da chamada globalização cultural ou de uma colonização na qual todas as manifestações individuais são desvalorizadas. Assim, na música as possibilidades mais enriquecedoras são marginalizadas e passam a ser apenas cultuadas em experiências individuais. Até uns anos esta uniformização da cultura privilegiava a invasão externa, mas hoje este mecanismo reproduz esse subproduto de forma local e o que vemos não é mais a indústria impondo modelos alheios de forma direta, mas o crescimento da poluição de manifestações locais espelhadas naqueles modelos.

Esse mecanismo de despersonalização tomou conta da rítmica e dos estilos; assim os gêneros musicais caíram nessa mesmice, perdendo as suas variáveis e a sua pluralidade sofrendo uma uniformização com a intenção de criar uma única arte para um único mercado. Esse atropelo à heterogeneidade e o que conhecemos como “cultura de massas”.

Não temos mais samba, bossa nova, partido alto, não teremos mais tango tradicional ou novo tango; não existirá rumba guaguancó, cateretê, coco, jongo, candombe ou chamamé ; agora tudo acaba entrando nessa maquina de triturar ideias para tornar a audição domesticada a algo determinado. Perdemos o som acústico, a beleza melódica, a dinâmica musical e o uso dos ritmos em troca de absolutamente nada de valor. Resumindo além do uso dos ritmos da tradição africana, o Neo Primitivo levanta a questão de privilegiar a pluralidade de sotaques que existem no mundo.

 

Exemplos de Primitivismo na pintura.

Retomando o significado da palavra “primitivo” no sentido elogioso como algo relacionado com o principio, a origem, o estado natural, autentico, espontâneo, não contaminado pelo “progresso da civilização”.


O artista encontra estas situações em contato com a natureza e em contextos “pré civilizados”.

Este contato influenciou a vários artistas importantes como foi o encontro do Pablo Picasso com as máscaras africanas ou as experiências formadoras pelas que passaram nomes como Joan Miró, Paul Klee, Natalia Goncharova, Constantin Brancusi, Henri Rousseau, Mikhail Larionov ou Paul Gauguin.

Paul Gauguin (1848-1903), por exemplo, teve uma crise existencial ; em um momento da sua vida ele quis se distanciar do ambiente francês e viaja ao interior de um lugar onde o contato com a natureza o convoca a mudar completamente sua relação com a paisagem , as cores, a luz e os cenários. Os motivos taitianos de Paul Gauguin acabam sendo importantes para compreender como esta ideia a relação com um lugar mais natural pode colocar ao artista em contato com motivações mais essenciais.

Lá ele pintou 66 obras, estas obras taitianas influenciaram os fauves, os cubistas e marcaram a chegada da arte moderna.

Entre artistas plásticos que participam desta aproximação temos no Brasil a Tarsila de Amaral relacionada com o movimento da semana de 1922 e a Di Cavalcanti com todo seu colorido dedicado aos temas populares. Podemos citar a outros dois artistas como Héctor Julio Páride Bernabó, o  Carybé (ele é um artista argentino radicado no Brasil) , a uma artista contemporânea chamada Flavia Valente com sua arte sobre mitos suburbanos e a Rubem Valentín verdadeiro criador de uma linguagem Afro-Brasileira.

Valentín declara “Minha linguagem plástico-visual-signográfica está ligada aos valores míticos profundos de uma cultura afro-brasileira (mestiça-animista-fetichista). Com o peso da Bahia sobre mim – a cultura vivenciada; com o sangue negro nas veias – o atavismo; com os olhos abertos para o que se faz no mundo – a contemporaneidade”. Ele buscava, como dizia no mesmo texto, uma linguagem universal, mas de caráter brasileiro.

Em Uruguai temos a presença importante de Pedro Figary com toda uma obra dedicada a retratar a riqueza colorida do Candombe.


Em Cuba ainda temos  na cultura Abakuá uma serie de símbolos chamados de Anaforuana que por si só já podem ser considerados como grafias artísticas . Temos também artistas que retrataram esta cultura como Víctor Patricio de Landaluce e mais recentemente a Belkis Ayon com toda uma obra dedicada ao mito da princesa Zikán .

Temos  também artistas como Víctor Manuel, Amelia Peláez, Wifredo Lam, Ivan Cepeda Garcia, René Portocarrero entre outros.

 

Exemplos musicais do Neo Primitivo em Cuba e na América.



No continente americano se deu um processo de integração entre a cultura europeia, dos nativos e dos negros que não se deu na Europa.
As influências se cruzaram e deram à luz uma arte que incorporou a rítmica e a instrumentação africana e indígena junto com a harmonia e o comportamento europeu.
Isto ocorreu de forma natural a partir do século XIX quando começaram a amadurecer os estilos até que no começo do século XX estes estilos se cristalizaram.
O Jazz e a música cubana começam a dialogar de forma mais cotidiana a partir dos anos 40. As congas ingressam no mundo das orquestras de jazz trazendo cores e ritmos que não tinham sido escutados na América.
Estas experiências podem ser reconhecidas como movimentos com afinidades com o Neo Primitivo.
Em relação com os modos que o Neo Primitivo pode abarcar é algo muito grande e muito heterogêneo. Pode ser que o artista (como faz o grupo Síntesis) inclua cantigas da tradição afro-cubana e as recrie com ritmos atuais, ou pode usar ritmos da tradição afro para tocar standars de jazz como faz Chucho Valdes, pode como Coltrane apenas se inspirar no espírito do africano, na sua essência. Pode como Moacyr Santos criar ritmos inspirados na tradição ou pode como Dorival Caymmi criar canções que incluam essa temática. Pode ser usado o tambor ou recriar podemos este ambiente com o fraseado do violão (como já comentamos) para dar uma ideia do sentido ancestral. Podemos usar uma voz solista e coro como se faz na tradição ou podemos substituir essa formação por sopros, mas permanecer com o comportamento de coro e solista. Não existe uma formação ou um comportamento único. Isso é algo enriquecedor. Podemos usar algum dos tantos ritmos da tradição ou misturar eles como faz Michael Spyro. Não existe uma regra, existe uma sensação que tem que ser convocada na qual esteja presente a ancestralidade, mas os meios para alcançar esta identificação são absolutamente livres.

 

Vamos a falar agora dos protagonistas de toda esta estética.
Dizzy Guilespie.

Dizzy Guillespie no final dos anos 40 tentava se desprender esteticamente do be bop que ajudara a inaugurar junto a Charlie Parker.

Guillespie começa a trabalhar Junto a Mario Bauza, que era diretor musical de Machito e seus afro-cubanos e arranjador da big band de Chick Web. Com ele conhece a Chano Ponzo um importante percussionista cubano da tradição do Abakuá.
Junto com estes parceiros incorpora uma nova linguagem que de algum modo mudaria a estética da música americana inaugurando o latin-jazz.

Aqui uma das suas músicas mais emblemáticas “Manteca”. Apresentado pela primeira vez em 1947, “Manteca” foi muito bem recebida. A revista Downbeat explicou isso como "um rito tribal, fazendo uma declaração primitiva”; Gary Giddins do The Village Voice o chamou de "um dos discos mais importantes já feitos nos Estados Unidos".
https://youtu.be/s2Tt6W-TxXs
Dizzy Gillespie desenvolveu esta estética o resto da sua vida, uma das mais importantes formações que dirigiu foi justamente uma orquestra onde eram reunidos músicos de todo o mundo chamada: United Nations Orchestra.
https://youtu.be/M9ZCgC81kII

Nesta orquestra temos no trompete a Dizzy Gillespie , Arturo Sandoval, Claudio Roditi e James Moody . No sax alto Paquito D'Rivera e Mario Rivera. No sax tenor Slide Hampton . No trombone Steve Turre. Danilo Perez no piano. Ed Cherry na guitarra. John Lee no baixo. Giovanni Hidalgo e Airto Moreira na percussão e Ignacio Berroa na bateria.


Chucho Valdés.
Chucho Valdés em 1973 cria o Jazz Batá com a intenção de trazer para a sonoridade do jazz a influencia dos ritmos e dos instrumentos da tradição afro cubana que acontecem na Santeria.
O primeiro disco é dos anos 70 e o segundo de 2018
Em 1967 se reúnem na Havana os músicos da Orquestra Cubana de Música Moderna, em 1973 batizam o projeto com o nome de Irakere. A base da rítmica eram as raízes musicais afros cubanas. De este modo, a través da combinação, mistura e interelação do clássico, do impressionismo, o jazz, o rock e várias técnicas de composição conseguem produzir uma música dançante, de concerto, da tradição e da atualidade cubana.

https://youtu.be/VapQAWxEGzo

Aqui alguns dos seus integrantes históricos: Armando Cuervo (Percussão), Fran Padilla (Percussão), Chucho Valdés (Piano), Jorge Alfonso "El niño" (Congas), Enrique Plá (Bateria), Carlos del Puerto (Baixo), Jorge Varona, Arturo Sandoval , Juan Munguía, Manuel Machado, Adalberto Lara (Trompete), Jose Miguel Crego “El Greco” (Trompete). Carlos Averhoff e Ariel Brínguez (Saxo tenor), Paquito D´Rivera e Rafael Águila "El Paco" (Saxo alto), Germán Velazco (Sax alto e soprano), José Luis Cortés (Sax barítono e flauta), Orlando Valle Maraca (flauta), Carlos Emilio Morales (Guitarra) e César López (Sax).
Desde 1974 até 2001 gravaram mais de 30 discos.
https://youtu.be/P7KMJ_dTawI


Mongo Santamaria.
O percussionista, também da tradição do Abakuá, participou como líder de vários discos que realmente podem ser escutados como antecedentes de uma retomada das tradições africanas misturadas com o jazz e a música popular ocidental.
Aqui um disco importante de 1976 “Ubane – Canto Abakuá Mongo Santamaria y Justo Betancourt”.
https://youtu.be/TeLba2UpGak
Seu arranjador foi Marty Sheller. Na década de 1960, Marty Sheller fez uma parte considerável dos arranjos para o Mongo Santamaria. Marty estava na seção de trompete da banda de Santamaria e participou de sua importante versão do jazz latino de Herbie Hancock's Watermelon Man em dezembro de 1962. Este disco também pode se encontrar com a afinidade de este som que estamos apresentando.
https://youtu.be/oP-vD4ScAGA

Amadeo Roldán.

Nasceu em 1900 e morreu em 1939 nessa pequena passagem pelo mundo o músico francês de família cubana foi um dos representantes da música afro cubana realizando um diálogo com a música de concerto.

Aqui um dos seus quartetos de música de câmara dedicados à Rumba

https://youtu.be/67_2covZnxw


John Coltrane.
Embora Coltrane tocasse fundamentalmente jazz ele também colocou ritmos latinos em boa parte de seu repertorio. Nos últimos anos da sua vida sua relação com África nos discos Dakar e no tema África, por exemplo, se intensificou retratando uma afinidade mais com o espírito que com os ritmos africanos.
https://youtu.be/XWYnfiSvjSk
https://youtu.be/NI3WwoBOR_s


Conrad Herwig.
Conrad Herwig é um trombonista e arranjador que realizou a partir dos anos 90 uma série muito interessante de tributos a grandes nomes do jazz a partir de uma perspectiva latina junto a músicos como os pianistas Eddie Palmieri, Michel Camilo; sopros como Andy Brecker , o baixista Rubén Rodriguez , o baterista Robby Ameen e a percussão de Pedro Martinez.
Aqui um disco de Conrad dedicado a Herbie Hancock , outro dedicado a Coltrane e outro a Horace Silver.

https://youtu.be/EU3Hb9eAEp8
https://youtu.be/hIysEsQugHo
https://youtu.be/4dbVGphmpxA


Eddie Palmieri.
Palmieri surge na cena musical desde os anos 60 e anos mais tarde é incorporado ao time da Fania Records quando a Salsa toma conta da musicalidade dos imigrantes latinos em New York. Retoma mais tarde a sua paixão pelo latin jazz e se consagra como um dos pianistas mais procurados de este gênero.
Aqui um dos seus últimos discos junto a Brian Linch. No grupo Gregory Tardy (sax); Conrad Herwig (trombone); Boris Kozlov (baixo); Dafnis Prieto (bateria); Pedro Martinez (congas); Little Johnny Rivero (bongo, campana)
https://youtu.be/XnYxRoGF6QI
Horace Silver.
Horace Silver foi um pianista conhecido por participar da celebre orquestra “the Jazz Messenger”. Ele tinha no seu próprio sangue a mistura da música de Cabo Verde e da cultura americana.
Foi um dos músicos de jazz mais influentes nas décadas de 60 e 70. As suas composições mais conhecidas são Nica’s Dream, Song for my Father e Peace.
Vamos a ouvir Nica’s Dream.
https://youtu.be/KDrxzKYdwsA

Grupo Mezcla.

O grupo Mezcla. É um grupo musical fundado em 1985, que se caracteriza justamente por fazer uma mistura de ritmos como rock,  jazz, a música beat, a música popular cubana, brasileira e canções do movimento da “nueva trova”, alem de incorporar música norte americana e a música clássica europeia com procedimentos electroacústicos.

A formação inclui sete músicos dirigidos por Pablo Menéndez (vocalista e guitarrista). O grupo é formado por Octavio Rodríguez (percussão), Máyquel González (trompete), Magela Herrera (flauta e piano),  Damián Nueva (baixo), Jesús Fuentes (sax) e Ruy Adrián López-Nussa (na batería).

https://youtu.be/NnbnxqPrPjA


Emiliano Salvador.
Emiliano Salvador nasceu em Puerto Padre (Cuba) e a pesar da sua corta vida foi um dos pianistas mais importantes de uma geração de músicos que começaram a fusionar o jazz com a musicalidade latina.
Aqui deixamos o disco de 1969 “Nueva Visión” que mudou a estética de muitos músicos do mundo inteiro.
https://youtu.be/ze1p4d45k08


Hugo Fattoruso.
Hugo Fattoruso é um pianista uruguaio que conheceu a música americana por viver em New York onde com o seu grupo Opa inaugura uma mistura de Candombe, jazz, rock e música popular junto com seu irmão o baterista Osvaldo Fattoruso e Ruben Rada.
Aqui um disco de Opa dos anos 70
https://youtu.be/BquHUU667T4

Aqui algo mais recente chamado Rey Tambor
https://youtu.be/ZbfTtfSjRuU


Bata Ketu.
Este disco produzido por Michael Spiro é um projeto que tem completa afinidade com a ideia do Neo Primitivo. Reúne os cantos e os ritmos das tradições africanas que se desenvolveram em Cuba e no Brasil misturando os ritmos e os cantos ancestrais com bases criadas e arranjos originais.
https://youtu.be/ldxC4O2bqvE


Síntesis.
Síntesis é o nome de um projeto que nos anos 80 revitalizou a estética afro cubana misturando a tradição com arranjos e comportamentos da tradição da música popular com guitarras eletrônicas, efeitos e uma sonoridade atual. Aqui a trilogia “Ancestros”.
Aqui alguns músicos que participaram deste disco: Carlos Alfonso, Ele Valdes, Lucía Huergo, Fidel García, José Bustillo, Frank Padilla. Arranjos de Carlos Alfonso e Lucía Huergo e, como convidado especial, a voz de Lázaro Ross.
https://youtu.be/S5x0chyhQAE


Aqui o segundo disco Ancestros II
https://youtu.be/RRogN5JqhaM
Aqui Ancestros III
https://youtu.be/4bjiNJhJcAo


Orquestra Afro Sinfônica.
O maestro Bira Marques cria esta orquestra no Brasil dedicada à música africana misturado com a instrumentação da música clássica.
https://youtu.be/HEOOl2lV-pQ


Orquestra Afro Brasileira.
Fundada pelo maestro Abigail Moura (1904-1970) em 1942, o grupo lançou dois discos, sendo um clássico dentro da música popular.
https://youtu.be/YMq87VFaBu4
https://youtu.be/uRcR8XMXwFw


Grupo Ofá, Mateus Aleluia.
Recém lançado o disco Obatalá é uma mostra de como se pode recriar a sonoridade ancestral com elementos atuais .
https://youtu.be/1F2r00vSmLs


Airton Moreria.
O percussionista que tocou com Hermeto Paschoal e com Miles Davis é importante em inaugurar a figura do percussionista nos EE.UU . Aqui tocando para Oxalá.
https://youtu.be/vkbb2PAChB4


Leiteres Leite.
Existem hoje vários artistas que conhecendo a riqueza desta tradição dialogam com arranjos provenientes do jazz, um dos mais importantes é Letieres Leite e sua orquestra RumpiLezz. Leiteres . Leiteres é um multi instrumentista e um grande arranjador.
Primeiro escutamos um concerto de São Paulo e depois um encontro em dois capítulos com o saxofonista de jazz Joshua Redman.

https://youtu.be/4Ty4ZCkVWWw
https://youtu.be/k3CXHo2Ai80
https://youtu.be/dQ2FtK4eAY0


Baden e Vinicius.
Nos anos 60 Baden Powell junto com Vinicius de Moraes produziram os Afro-Sambas uma experiência inovadora onde dois artistas da bossa nova dialogaram com a rítmica africana.
https://youtu.be/r9XLtmr5yqE


Moacyr Santos.
O compositor e arranjador enriqueceu a sua grande obra com elementos da música afro brasileira. Moacyr usa ritmos criados por ele mesmo e temas inspirados na tradição da musicalidade afro brasileira.
https://youtu.be/0Wg9G0_19Sc


Dorival Caymmi.
Dorival tem um modo de compor que as suas canções por momentos parecem mantras ou cantigas da tradição afro-brasileira. Ele é um dos músicos que mais inspira as novas gerações na mistura do ancestral com o atual.
Aqui uma das suas composições “É doce morrer no mar”.
https://youtu.be/0VBaOGAsD00

Heitor Villa Lobos.

Comentamos que existia no Brasil todo um movimento de compositores de música  de concerto que tinham aderido a escrever músicas dedicadas ao culto dos Orixás ou à cultura negra.

Mencionamos composições de Brasilio Itiberê, Alberto Nepomuceno, Camargo Guarnieri e do Villa Lobos. Este último assim como mais tarde aconteceria com Tom Jobim foi muito inspirado na sonoridade dos negros , dos índios e das imagens geradas pelas florestas amazônicas com seus pássaros e sua sonoridade natural.

Aqui uma obra dele que transmite todo este universo. Uirapuru

https://youtu.be/L9fNd6NfPIQ

Alberto Ginastera.

O músico argentino Alberto Guinastera nos fala de um folclore imaginário ou um nacionalismo subjetivo nele e em Vila Lobos. Ele chama de um folclore imaginário, algo como a recriação de um folclore incorporando novos comportamentos. Ele, Villa Lobos junto com Manuel de Fallla e Béla Bartók seriam os precursores da utilização de certos ritmos e cadencias que nascem na música popular e inspiram a música de concerto. 

https://youtu.be/N_xok2JJPy0

Ramiro Mussotto.

Ramiro é um percussionista, produtor e compositor argentino que viveu durante muitos anos no Brasil e dedicou os últimos anos da sua vida a construir seu legado. De esta etapa musical surgem dois discos importantes que um pouco mostram como se pode misturar a música da tradição afro-brasileira com a música eletrônica.

https://youtu.be/wsMtjsYLrMA

https://youtu.be/wR2QaECa7QE


Conclusões.
Quando falamos de Neo Primitivo falamos da recriação da ancestralidade, isto quer dizer: arte atual inspirada nas raízes primordiais. Com esta afirmação se falam ao mesmo tempo, muitas coisas ou nenhuma.
Quando falamos do “primitivo” não se trata do que normalmente é conhecido
como sinônimo de negritude: “samba, carnaval, swing e percussão”. Também não é uma categoria que caracterize algo milimetricamente preciso- uma categoria na que entram John Coltrane, Vinicius de Moraes, Cuchi Leguizamón e cantigas de Candomblé é como um gênero animal no qual este incluído: bode,tilápia, cameleão e tartaruga marinha.
Por outro lado, embora estamos nadando num imenso mar, quando falamos do Neo Primitivo estamos falando de algo abrangente, mas também mencionamos, por exemplo, a uma música que nasce no começo do século XX e que se manifesta de forma clara a partir dos anos quarenta quando ressurgem estilos inspirados nas raízes africanas na América. A esse território das músicas ancestrais inseridas nas novas possibilidades é onde pertence o Neo Primitivo.

Ele está num tipo de Jazz, nos cantos sagrados e em todo um universo artístico de raiz africano que ilumina a arte ocidental.

Parafraseando a Diego Fischerman uma música à que o mundo lê abriu lugar e ela deu lugar a novos mundos.

Bibliografia

Heidegger (Ser e Tempo, Parmenides e Seminarios do Tor)

Ramon Torres Zayas (2021)

José Miguel Wisnik, (1977), p. 45.

Egberto Gismonti (reportagem https://youtu.be/45JM7ESfxUA)

Leiteres Leite (reportagem https://youtu.be/pagX33_fRkQ)

Mateus Aleluia (reportagem https://youtu.be/YwJwgoN5r5w)

Nina Graeff Matizes Africanos na Música Brasileira (Link  para o dossiê completo: https://periodicos.ufpb.br/index.php/claves/issue/view/2606 ).

Marx e Engels -Manifesto Comunista  –  Capitulo 1 (1845).

Ernandes Gomes Ferreira.  LITERATURA, MÚSICA ERUDITA E POPULAR NO MODERNISMO BRASILEIRO 

 Mário de ANDRADE,. Ensaio sobre a música brasileira. 3ª ed. São Paulo: Vila Rica; Brasília: INL, 1972.

 Bernardo Ricupero O “ORIGINAL” E A “CÓPIA” NA ANTROPOFAGIA.‘ORIGINAL’ AND ‘COPY’ IN BRAZILIAN ANTHROPOPHAGY..


Diego Fischerman (2021)

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sociedad Abakuá: Huellas

Por Ramón Torres

Con profunda satisfacción leía yo en la sección “Hoy en la historia”, del 6 de enero del 2006, en el rotativo Granma: “1836. Surgimiento de la Sociedad Secreta Abakuá entre los esclavos africanos en Cuba”.

Esta mención en la prensa, por vez primera después de tantos años, a la hermandad, fraternidad, cofradía, corporación —como queramos llamarle—sucedía un mes después de que fuera incorporada oficialmente en el Registro Nacional de Asociaciones de Cuba, algo que se lo tenía muy bien merecido, porque la Sociedad Abakuá ha devenido con el tiempo símbolo de la Cuba misma.

ENTRE ESTEREOTIPOS Y ESQUEMAS

Junto a los yorubas y bantúes, forman los carabalíes la trilogía de grupos africanos más importantes introducidos en la Isla por el cruel sistema de la trata; sin embargo, de los últimos se conoce poco, debido a que su mayor legado nos viene de la fraternidad abakuá, asociación religioso-mutualista aparecida en el XIX, fundamentalmente como respuesta a los desmanes esclavistas.

Entonces las autoridades coloniales les llamaron ñáñigos o “arrastrados”, dicen que atendiendo a los movimientos de los íremes o diablitos cuando danzan, y aunque el ilustre investigador Don Fernando Ortiz considera que el término procede del bantú ñaña (simulación) y ngo (leopardo), o sea, “simulación o espíritu del leopardo” (que es en realidad lo que representan los íremes), “arrastrado” significa pobre, pícaro, bribón…, atributos que muy bien pudo manipular el conquistador para designar a los miembros de Abakuá.

Así, esta agrupación resultó mal interpretada durante mucho tiempo, debido a prejuicios, tergiversaciones y esquemas heredados de la colonia, como casi todos los fenómenos venidos de los desposeídos.

Con todo, la cultura abakuá, sus figuras y sus voces, así como su actividad en general, han desempeñado un rol significativo en la formación de nuestra identidad. De hecho, no es posible un análisis serio ni completo del cubano si se desconoce la aportación de los ñáñigos, cuya huella innegable visualizamos en la música, danza, literatura, teatro, artes plásticas, etc., o lo que es igual, en la conformación de nuestra cultura artística.

En cambio, sobre el ñañiguismo aún subsiste una gran laguna, porque —reiteramos— su tratamiento ha sido escaso si lo comparamos con investigaciones dedicadas a otros cultos, y hasta bien avanzado el siglo XX casi todas las referencias están matizadas por la ignorancia y la parcialidad. Al respecto señalaba la reconocida etnóloga Lydia Cabrera en 1959: “Cierto que entre nosotros un complejo de mestizaje difícil de dominar o los prejuicios de una mentalidad todavía provinciana y mal informada, lejos de estimular el interés de posibles investigadores, lo desvían como algo vergonzoso.”

El triunfo revolucionario, con sus transformaciones políticas, sociales y económicas, abre las puertas a nuevos horizontes prácticamente inexplorados. Se proyecta el rescate de la herencia cultural africana, y con ella la abakuá. Se funda en el Teatro Nacional de Cuba el Efí Yaguaremo, primera compañía artística dedicada a divulgar el aporte carabalí-abakuá; se crean los departamentos de Música de la Biblioteca Nacional, de Etnología y Folclore de la Academia de Ciencias y el de Música de la Casa de las Américas. Aparecen luego otras instituciones que impulsan el análisis científico de las llamadas religiones populares y, desde ya, el abakuá forma parte de su sistemática labor artístico-investigativa: la Fundación Fernando Ortiz, las Cátedras de Estudio Africanistas y Caribeños de la Fundación Pablo Milanés y la de Estudios Afrocubanos Argeliers León, del Instituto Superior de Arte, son solo algunos ejemplos. Se ha dado el primer gran salto.

LA MARCA SONORA

“Varios son los especialistas —nos dice el desaparecido doctor Lino Neira, presidente de la Sociedad de Percusionistas de Cuba— que han investigado la interacción o el desenvolvimiento de ‘diálogos’ entre diferentes elementos motrices o facilitadores del desarrollo de la música (…) Este tipo de diálogo musical quizás se observe mejor en el abakuá que en cualquier religión afrocubana, donde un instrumento de fricción de origen efó, el ékue, ‘dialoga’ durante la fiesta, desde su oculto rincón, con dos instrumentos externos básicos del biankomeko, el ekón y el bonkó-enchemiyá, de ascendencia efí, los que a su vez se comunican musicalmente con cada uno de los íremes que han sido estimulados a bailar con la erikundi de cuatro sonajas en forma de cruz, y ellos, a su vez, pueden sacudir haciendo percusión con las campanas enkaniká de su vestuario.”

Durante la fiestas abakuá, conocidas como plante o baroko, intervienen dos grupos de instrumentos: los simbólicos o de orden, y otros verdaderamente musicales. Sobre los primeros visibles: eribó, empegó, ekueñón y enkríkamo, solo se ejecutan sonidos, llamados o golpes cuando lo requieren las circunstancias, mientras que en el segundo (el conjunto biankomeko, formado por el bonko-enchemillá, obí apá, oró apá y cuchi yeremá, acompañados por un cencerro —ekón—, las erikundi y los palos percutientes) es donde indiscutiblemente recaen los toques.

“Con el juego batá de los yoruba—explica Luis Bergara Abaró, músico iniciado en Abakuá Efó—, también ha influido el conjunto biankomeko en la polirritmia de los tambores, y ha influido en la síncopa de las claves. Asimismo, la presencia africana (abakuá incluido) ha marcado los cantos con la alternancia de solo y coro.”

La música cubana le adeuda mucho a la cultura abakuá. A la Guerra Necesaria organizada por José Martí se incorpora como corneta del Lugarteniente General Antonio Maceo el compositor Enrique Peña, quien elabora la pieza “El ñáñigo”, un homenaje a los combatientes de la gesta independentista y que termina con una marcha abakuá. Otro hacedor, Obdulio Morales, en sus producciones “Enlloró”, “Ekue” y “La culebra”, inserta evidentes referencias a prácticas abakuá; Ignacio Piñeiro, iniciado en la entidad, elabora el afro-son “En la alta sociedad” con elementos y frases propias de esta cultura.


Piñeiro no es el único obonekue (iniciado) con dotes artísticas: figura toda una cohorte de la cual solo citaremos a los más representativos: Chano Pozo (Muñanga Efó), lleva las tumbadoras al jazz; Horacio L’Lastra (Endibó Efó), autor del célebre guaguancó “Pongan atención”; Justi Barreto (Usagaré Mutanga), hace otro tanto con “Batangá No. 2”; Juan de la Cruz Iznaga (Efí Abarakó Taibá), graba “Marcha carabalí”; Santos Ramírez (Usagaré Sangrimoto), idea con Julio Blanco Leonard “Tumbando caña”, marcha emblemática de la comparsa El Alacrán; etc.

PURA DANZA

Si bien la música abakuá ha ejercido un poderoso influjo en la cultura artística cubana, es el íreme, sin duda, quien mejor simboliza al complejo ñáñigo. Este singular personaje oficia fundamentalmente en las ceremonias para purificar, castigar, venerar a los astros y objetos litúrgicos, verificar y dar fe de que se hace lo correcto. El íreme representa un ente sobrenatural, un espíritu de los antepasados que sale a la fiesta y baila al compás de la percusión, conducido, habitualmente por Enkríkamo.

“Llegada es la hora de que Enkríkamo le ordene que salude a la concurrencia —apunta el investigador Tato Quiñones—. El diablito mira en derredor, reconoce como a ‘hermanos’ a muchos de los hombres que colman el patio y demuestra su regocijo erguido en la punta de los pies, haciendo sonar frenéticamente los cencerros que cuelgan de su cintura. Los participantes se le aproximan, todos quieren saludar y ser saludados por el enmascarado. Entonces Enkríkamo hace una señal para que lo dejen aproximarse a los tambores. Se abre un espacio en la muchedumbre y, entre las dos filasresultantes, el íreme avanza, ahora bailando, hacia la orquesta, frente a la que demuestra su júbilo; se ‘suelta’ entonces a bailar entre la algazara y los vítores de la concurrencia. De pronto, el músico que percute el tambor de mayor tamaño (el Bonkó Emchemiyá), se adelanta unos pasos, se acaballa sobre el atabal y se da a improvisar un ‘solo’ que el íreme responde alborozado, radiante, estableciéndose entonces una manera de ‘diálogo’ entre el danzante y el tamborero —que hace ‘hablar’ a su instrumento un lenguaje que el diablito conoce—, que bien puede calificarse de prodigioso.”

Desde el punto de vista danzario, es la rumba el género que más ha bebido de la savia ñáñiga, fundamentalmente en la columbia, música popular bailable privativa de hombres, en la cual el rumbero que danza parece entenderse con el tamborero que percute el quinto, algo que toma prestado del diálogo íreme-Moní bonkó, comunicación que ha permeado nuestra cultura artística debido a su desbordante teatralidad.

EL DRAMA

“Los estudios realizados por Ortiz —asegura Lino Neira— permitieron destacar la existencia de una teatralidad propia en cada una de las festividades de origen africano celebradas en Cuba y, por ende, de una dramaturgia propia”. Y refiriéndose a la cultura abakuá, el ilustre Ortiz es categórico: “El rito ñáñigo (…), entre los que sobreviven en Cuba, es quizás el más complejo y teatral”.

El drama cultual de la fraternidad ha calado profundamente nuestras manifestaciones artísticas. En 1928 se pretendió llevar al teatro municipal de Guanabacoa la pieza en un acto "Áppapa Efí", que contaba con el concurso de un grupo de ñáñigos interesados en levantar el velo de prejuicios en torno al ñañiguismo. Sin embargo, la idea resultó trunca ante la intervención del propio Consejo Supremo Abakuá, tan celoso en los asuntos inherentes a la asociación.

No obstante, el ñañiguismo asalta el teatro ese mismo año, cuando el estudioso y novelista Alejo Carpentier organiza el ballet "La Rebambaramba" con exhibiciones de danzas populares y las congas del Día de Reyes.

Hacia la misma época expone Amadeo Roldán "El milagro de Anaquillé", un verdadero espectáculo dramático en cuyo centro figura el diablito. Asimismo, el pródigo Gonzalo Roig idea la zarzuela "Cecilia Valdés" (inspirada en la novela homónima de Cirilo Villaverde), donde se muestra también la procesión abakuá.

Es, en cambio, Carlos Felipe, quien desde sus primeras incursiones se detiene en el mundo de los excluidos. Su obra marca un viraje necesario dentro de la dramaturgia cubana vanagloriándose con recursos del teatro más prestigioso. En "Réquiem por Yarini", trabaja el autor a un personaje muy ligado a la Sociedad Abakuá y, aunque no se tiene evidencia de que haya pertenecido a la entidad, se afirma que en su velorio bailó un íreme, como deferencia por el singular chulo habanero de principios del siglo XX. Y ese Yarini, muy emparentado con el mundo marginal del ambiente habanero, con los iniciados abakuá, sirve de pretexto a Carlos Felipe para justificar su creación.

Pero los cimientos de los excluidos se estremecen verdaderamente cuando en la década de 1960 irrumpe el segundo gran momento que signa un nuevo reconocimiento de las culturas negras después de la vanguardia de los años 20 y 30 del pasado siglo.

Eugenio Hernández Espinosa es uno de los protagonistas de la llamada “eclosión” del teatro en esta etapa. Sus obras evidencian un orgullo de pertenencia, así como las constantes que se mueven en el barrio. De su cosecha son "María Antonia", "Mi socio Manolo", "Caridad Muñanga": escenario de rumbas, comparsas tradicionales y bailes populares.

La gente del solar, de la marginalidad, de los estratos más humildes de la cotidianidad habanera constituyen fórmulas constantes dentro del quehacer de Espinosa: Julián, el de "María Antonia", es ñáñigo juramentado de Muñanga, uno de los juegos más prestigiosos de la Sociedad Abakuá.

Un solar centrohabanero es el espacio donde se desarrolla la pieza "Andoba", del desaparecido Abraham Rodríguez, cuyo protagonista está permeado por la psicología del ambiente. Cuando Salfumán, uno de los personajes de la trama, se expresa con los términos de iria (comida), moropo (cabeza) u ocambo (viejo), está utilizando códigos lingüísticos abakuá que han influido en la lengua popular cubana.



En 1989 el dramaturgo Rolando Sánchez Ferrer estrena en el Teatro García Lorca la ópera "Ekue Yamba O", basada en la primera novela de Alejo Carpentier, que se centra en el fenómeno abakuá, mientras que Jorge Ybarra cuenta en su haber, para inicios del siglo XXI, una tragedia amorosa que nos retrotrae al drama shakesperiano de Romeo y Julieta. Ybarra hace desaparecer en su puesta al mítico príncipe Mokongo, vencido por el amor de su prometida Sikán. Arranca de la tierra a un antepasado carabalí convertido en espíritu para rescatar a un hombre en su máxima expresión, con virtudes, con defectos, con aciertos y desaciertos.

LA HUELLA PLÁSTICA

Ya habíamos afirmado que la sociedad masculina de los abakuá ha devenido símbolo, para muchos, de la Cuba misma. Imágenes de íremes son a menudo socorridas por agencias turísticas como réplica distintiva de la Isla Grande, una emisión de sellos exhibe a los pintorescos “diablitos” por el mundo mientras que el singular personaje, reproducido en souvenirs, se distribuye en los más insospechados estanquillos y ferias comerciales.
El rito ñáñigo en cuestión, con su elevada carga simbólica, ideogramas alegóricos, música pegajosa, y convulsos movimientos danzarios, ha trascendido la producción plástica, incluso entre cultores profanos.

Las presentaciones de danzas abakuá, esporádicas unas veces, habituales otras, llamaron la atención de Fréderic Mialhe y Víctor Patricio Landaluze, quienes realizaron pinturas costumbristas sobre el Día de Reyes; la más conocida del primero es su litografía homónima de 1848, y del segundo tenemos “Día de Reyes en La Habana” (alrededor de la década de 1870), así como un conjunto de poses del íreme.

Ya entrado el siglo XX, la tercera década trae aparejado un arranque de entusiasmo por las culturas negras. Se sabe que el despertar del interés por el folclore como tema comenzó por los Estados Unidos, desde donde se extendió hacia las Antillas y el resto de América. Mas la renovación de las artes plásticas africanas tuvo su germen en Cuba, con la irrupción de Wifredo Lam que, venido de París a principios de los 40 de la pasada centuria, intercambió experiencias con Alejo Carpentier y Lydia Cabrera, quienes lo conminaron a explorar el tema afrocubano.

Lam elabora en 1943 una pintura (sin título) que representa a un íreme percutiendo un tambor. Luego confecciona “Cuarto Fambá” (1945), su recreación imaginaria del recinto de iniciación abakuá, el cual, según el autor, sólo conocía por referencias.

Un trabajo homónimo sirvió asimismo a Mario Carreño, quien además saca a la luz en 1943 “Danza Afrocubana”, motivado por el singular espectáculo bailable entre un íreme y una encantadora mujer amestizada. Carreño pertenece a una generación prolífera en sugerencias, y comparte intereses con Mariano Rodríguez y René Portocarrero, consecuentes hacedores, de formación autodidacta pero exquisito gusto estético, y que resultaron también subyugados por la repercusión misteriosa del íreme y los ideogramas ñáñigos, legando a la posteridad obras de incuestionable valía.

Portocarrero en particular, absorbe del medio que lo rodea la información necesaria para sus creaciones. En 1946 aborda el tema de las fiestas populares, que lo conduce, inevitablemente, hacia la colección seriada "Diablitos", en óleo sobre tela.

La huella ñáñiga en la plástica no se detiene luego de establecerse durante el período de la negritud. Para 1957 el artista Rolando López Dirube confecciona un mural en el lobby del Hotel Habana Riviera donde destacan 90 firmas alusivas a la Sociedad Abakuá, aunque miembros de la corporación solo reconocen una verdaderamente personalizada. La obra ha sido restaurada por la profesora Elisa Serrano entre los años 1998-1999, con lo cual se garantiza la continuidad y permanencia de tales elementos simbólicos dentro del recinto.

Subiendo por la calle 23 del capitalino Vedado, rumbo al Hotel Habana Libre, encontraremos que a lo largo de varias cuadras de la acera izquierda (tomando como referencia la avenida de Malecón) caminamos por sobre pinturas instaladas en 1967, durante el nacimiento del Salón de Mayo en La Rampa. Dicho conjunto pertenece a la autoría de diversos artistas cubanos, como Lam y Amelia Peláez, entre otros, que alternan con un mosaico que representa un trazo abakuá.

Rafael Queneditt, por su parte, esculpe una serie de firmas ñáñigas colocadas en el lobby del Teatro Nacional de Cuba con motivo de su inauguración, en 1978. Pero hay más:

“Dentro del Palacio de las Convenciones —explica el investigador estadounidense Ivor Miller—, el edificio donde Fidel Castro se dirige a la nación y sede del Parlamento cubano, cuelgan una serie de firmas abakuá de diferentes dignatarios. Están grabadas en unos estandartes de cuero, cuya referencia original es la piel sacrificial de Sikán, la mujer que protagoniza el mito fundacional de la sociedad”. La autoría se debe, según pudimos precisar, a un artista de la plástica apellidado Cura, aunque lamentamos desconocer el nombre para dar una información más completa.


Un mural colectivo al aire libre recrea a los transeúntes en una de las calles aledañas al puerto de Matanzas y, entre otros muchos detalles, figura una firma abakuá que demuestra cuán recurrente es a los hacedores plásticos el empleo de los signos gráficos de la fraternidad.

Salvador González Escalona, artífice del proyecto cultural comunitario del Callejón del Hammel, en el barrio de Cayo Hueso, en Centro Habana, dedica un espacio de su pintura-mural al celebérrimo Andrés Petit, iniciador del primer juego abakuá de blancos, en 1863.

En un formato mucho más reducido, elprofesor Pedro Álvarez no pudo evadir el contagio de los ñáñigos. De su cosecha tenemos los óleo sobre tela “Al pasado no regresaremos jamás” y “Dear Elvis”, propuestas que apelan a un íreme novedoso, ligado a la transformación y denuncia sociales: limpiando un automóvil americano de los años 50 del pasado siglo XX, el primero; apuntando desafiante al observador con una pequeña arma de fuego, el segundo, en cuyo fondo destaca el logotipo de la Coca Cola.

Cuadros aislados aparte, la desaparecida Belkis Ayón impresionó al público con toda una obra sugestiva y coherente dedicada a la Sociedad Abakuá. Su primera exposición personal, Propuesta a los 20 años (Galería Servando Cabrera, Playa, 1988), la catapultó al estrellato, en especial el cuadro “La cena”, pieza tan enigmática como polémica que recoge a Sikán con figuras de piel escamada, en franca alegoría al pez Tanze, reencarnación de Abasí (Dios), así como la serpiente enviada por el brujo Nasakó para averiguar por la manifestación del Misterio. “La cena”, modificada y preparada más tarde, sirvió a la autora para su defensa de trabajo final en el Instituto Superior de Arte en 1991. Talento y celebridad se unieron en esta joven creadora, imprescindible en la cabecera de cualquier estudioso de la pintura sobre los abakuá en particular, y de la plástica en general. Sus imágenes, bajo la técnica de colografía, han sido expuestas ante un heterogéneo público que va desde Japón a España, pasando por Alemania, Canadá y Estados Unidos, entre otros.

Pese a su condición de mujer, supo Belkis recrear con respeto las leyendas y mitos de la Sociedad Abakuá y resaltó su poderosa singularidad dentro de nuestra cultura.

Igualmente, a esas referencias de mitos y leyendas ñáñigas llega por su propio camino Ruddy Fernández García. Las firmas le inquietan, es cierto, pero su concepción estética exige más. Los signos ideográficos justifican su primera exposición personal relacionada con el tema: Anaforuana (Centro de Arte de Boyeros, 1997). Al año siguiente monta en la prestigiosa Casa de África de la Oficina del Historiador de la Ciudad su propuesta Ekue, con el apoyo de la Compañía Folclórica Yoruba Andabo, en un engranaje místico-poético sin par. Le siguen “Tanze: Metáforas del Agua”, “En el nombre de Tanze”, “Noche de raíz y ala” y “Sígnico, la era de los hombres”, por solo citar algunas.

En esta fecha, pocos artistas de la plástica, sin embargo, trabajan el tema abakuá en sus obras. No obstante, se va ganando conciencia del valioso caudal que puede aportar la Sociedad Abakuá como entidad autóctona de Cuba. Los estereotipos y prejuicios hacia la corporación van quedando atrás y cada día cobra mayor fuerza el diálogo cultural de los artistas con el cultual de los iniciados.

EL ABAKUÁ EN LA LITERATURA

La impronta abakuá en la literatura ha sido muchas veces tratada de forma estereotipada, viciada o esquematizada, aunque figuran ejemplos con una perspectiva dinámica y hasta científica. Como quiera que sea, conviene tenerla en cuenta, porque a partir de ello nos permite visualizar la posición de clase, de partido o de compromiso social.

En el año 1880, cuando el gobierno español desataba una sórdida persecución contra el ñañiguismo, ve la luz "Manga Mocha", de R. P. Zoël, que nos presenta a un temible iniciado proveniente de la “mala vida”. Está claro el prejuicio hacia las culturas negras en este cuento, y no es casual si se tiene en cuenta que es precisamente ese el año cuando se decreta la Ley del Vientre Libre, en una sociedad dividida en clases.

El siglo XX continúa enriqueciendo la cuentística abakuá con los trabajos publicados por Guillermo del Valle en su libro "¼ Fambá y 19 cuentos más", volumen en el cual aparece igualmente el ñáñigo con carácter voluble, jactancioso y guapetón.

Más tarde (1967), José Manuel Sáenz recibe el premio David, que otorga la Unión Nacional de Escritores y Artistas de Cuba (UNEAC), por el cuento "El iniciado". Pero cuando verdaderamente se produce un giro es en la década de 1990; lo cual tiene su explicación: se ha producido el segundo gran paso en torno al ñañiguismo: le ha llegado la institucionalización tras la debacle del bloque socialista europeo y la búsqueda de salvar la Patria con el apoyo de todas las fuerzas que se han mantenido fieles a la Revolución. Aparece la Organización para la Unidad Abakuá y se potencia el trabajo para derribar la imagen negativa alrededor de la cofradía. Entonces se publica "Enlloró para Felipé Espínola", de Tato Quiñones, quien rescata la ceremonia mortuoria de un juramentado abakuá, humano y combatiente, que militó en las filas del Ejército Libertador de Cuba y fuera fusilado en la explanada del Castillo de San Severino, en la capital matancera.

En el terreno de la novelística también se oscila entre criterios encontrados. En nuestra obra cumbre "Cecilia Valdés", de Cirilo Villaverde, hay atisbos de la presencia ñáñiga aunque, como es de suponer, vinculada al mundo de la agresividad, de la navaja y la puñalada, sin que esto perjudique la calidad narrativa de las costumbres de las primeras décadas del siglo XIX.

Una de las obras principales de la segunda mitad del decimonónico, "La familia Unsúazu", bajo la autoría de Martín Morúa Delgado, dibuja al esclavo Liberato como ñáñigo indómito y violento.

Pascual de Riesgo y Soto nos presenta en "Dos habaneras" al negro Íñigo, valentón ecobio de la localidad habanera del Manglar, donde recoge las condiciones depauperantes en que subsistía la Sociedad Abakuá, marginada y excluida. "Ekue Yamba O", de Alejo Carpentier, aborda el tema abakuá a partir de los conocimientos adquiridos por el autor. En "Memorias de un deportado" Manuel Miranda prefiere retomar al negro de la etapa colonial y ofrece pinceladas del ñañiguismo.

Después de 1959, es Manuel Cofiño quien se acerca al problema religioso y la metamorfosis de Cristino Mora, el personaje central de "Cuando la sangre se parece al fuego", novela de alto contenido literario y social. Sin embargo, la obra responde a un momento histórico en el cual predominó un discurso excluyente y ateísta, que lleva al protagonista a renegar de los ancestros, de las costumbres, de la cultura heredada.

Pedro Pérez Sarduy aprovecha las "Criadas en La Habana" para incorporar a un obonekue que se integró, pero continuó en desventaja aun después de ocupar un cargo como dirigente sindical. La alusión que hace Amir Valle en "Habana Babilonia, lasprostitutas en Cuba", continúa con el estereotipo del ñáñigo inclinado a la actividad ilegal y alejado del trabajo como fuente de subsistencia, haciéndoles poco favor a los iniciados que cumplen con los códigos establecidos por la sociedad, incluso a merced de una profunda crisis económica. Daniel Chavarría, por su parte, introduce en "Príapos" a Nitroglicerina, otro ecobio, cuyo mayor “mérito” es ser diferente a la ¿mayoría? de los iniciados en la Sociedad Abakuá. El Nitro es valiente, intrépido, y además amigo de un homosexual.

En poesía hemos de volver al período de la negritud, cuando una pléyade de autores utiliza el caudal abakuá en provecho de su quehacer. La lírica de los años 20-30 del pasado siglo marca el amanecer de una nueva era, que precisaba de nuevos ingredientes para recoger la voz de nuestra nacionalidad. Los autores pueden ser cromáticamente negros, mulatos o blancos, pero su estilo los enmarca dentro del mestizaje fraguado en Cuba durante su desarrollo histórico, con las especias diferentes que integraron el caldo étnico cubano. Nicolás Guillén y Marcelino Arozarena van a la cabeza, sobre todo el último, cuya obra casi toda alude a los ñáñigos y demás cultos de origen africano.

La influencia abakuá en la poesía cubana ha de ser tomada en serio, pues los poetas que de ello se han valido guardan extraordinaria armonía con la lengua española, a tal extremo que pueden recitarse acompañados con tambores o cantarse al estilo propio cubano con el auxilio de otros instrumentos. En “Liturgia etiópica”, de Arozarena, según dice Miriam de Costa Willis: “la rumba deviene danza sagrada de los ñáñigos”.

Una vez colocado el detonante, la mecha prende como por simpatía. Muchos poetas populares han seguido el camino trazado por Guillén y Arozarena y se apropian de vocablos religiosos para llevarlos a lo profano. Con picardía sin par, Eloy Machado asume el aroma ñáñigo. Como el cubano amalgamado y mestizo, así es la poesía en la Isla. Mulata, con mezcla de lo yoruba, arará, bantú, carabalí…

EN PANTALLA

Si escaso ha sido el tratamiento de la Sociedad Abakuá por parte de las artes visuales, la parte correspondiente al cine, la televisión y el video lleva mucho menos ventaja. En cambio, lo anterior no desdice su presencia en los referidos medios, desde que en 1945 se escuchara el afro “Enlloró”, creación de Julio Blanco Leonard y Obdulio Morales, en la película estadounidense "La realidad de un sueño". Sin embargo, los ñáñigos han estado poco representados en la pantalla, y no es realmente hasta después del triunfo revolucionario que la desaparecida Sara Gómez los refleja en su largometraje "De cierta manera", el cual exhibe una procesión abakuá con sus íremes danzantes.

El mítico rumbero Mario Dreke Chavalonga, rememora a la revista "Salsa Cubana" su inserción en obras paradigmáticas, aunque pobremente conocidas:

“He participado en varias películas […] También documentales como el dedicado al TíoTom, 'Rapsodia abakuá' y uno sobre mi vida que rodó una francesa y se llama 'La Historia del negro rumbero Mario Chavalonga'".

Hacia finales de los años 90 del siglo XX, la realizadora Gloria Rolando se interesa por la evolución de las comparsas tradicionales que la conducen al documental "El alacrán", cuyo hilo conductor regodea sobre el fenómeno abakuá.

A "El alacrán" le siegue otro documental no menos ambicioso, "Los Marqueses de Atarés", que igualmente recrea la formación de un barrio, sus habitantes y su comparsa emblemática; el móvil de su creador, Víctor Herrera, iniciado en Isún Efó; y testimonios de bailadores, faroleros, músicos y del inigualable Chavalonga, miembro de la comitiva desde su salida, en 1937.

Por otro lado, en la década de 1990 se proyectó en el espacio televisivo "Día y noche" el serial 'Íreme contra dragón', que ofrecía elementos bastante serios y desprejuiciados de la Sociedad Abakuá.

Ya en 2001 participa la compañía de Tony Menéndez en el espectáculo de los Premios Lucas, que lleva al escenario una amalgama de íremes diversos, hiperactivos y pintorescos, que se mueven al compás de un toque ñáñigo para mezclarse con la canción tema en un montaje por demás atractivo y exótico.

Es, sin embargo, insuficiente, el trabajo de los realizadores de las pantallas (grande y chica) en torno al fenómeno abakuá, teniendo en cuenta su indiscutible incidencia en la cultura artística cubana, su potencialidad como asociación endémica de Cuba y su encanto expresivo, más allá de su ritual, secreto y riguroso.

Pero la aceptación del ñañiguismo en el Registro Nacional de Asociaciones y el reconocimiento del 6 de enero como Día del Abakuá ha sido, sin duda, el último gran paso que signa la historia de la corporación. Su accionar —votos a favor, votos en contra— forma parte inseparable de la cultura cubana y eso no podía permanecer por más tiempo ignorado.

Tomado de http://www.caimanbarbudo.cu/html_total/simpresas/articulos/336/336_10.htm


viernes, 19 de febrero de 2021

Cuba baila

Por: Ramón Torres
Quizá consideres un soberano ejercicio de chovinismo o exceso de suficiencia si te digo que en Cuba el baile casi forma parte del ADN de sus habitantes. Por eso, y para no pecar de absoluto, prefiero dorar la píldora y afirmar que, si bien algunos habitantes de la Mayor de las Antillas no se atreven siquiera a tirar un pasillo, lo cierto es que la mayoría de estos también “lleva la procesión por dentro”, solo que no la exteriorizan como los otros.
No es casual, entonces, que cada cierta temporada la televisión cubana convoque a ciclos de danza con el objetivo de estimular el talento de jóvenes bailadores. Lo último que tuvimos en la Isla fue una suerte de "reality show" titulado Bailando en Cuba.
Pero el fenómeno no es nuevo: a principios de los 80 del pasado siglo XX hizo furor el espacio Para bailar, de donde salieron prestigiosas figuras de la danza popular, como los hermanos Santos, los Francis y Rebeca Martínez, entre otras.
Sin embargo, ya desde el decimonónico, numerosas academias de baile se habían instaurado en nuestra población, sobre todo entre una profusa población negra y mestiza cubana, como lo demuestran investigaciones de Pedro Deschams Chapeaux y Juan Pérez de la Riva. Durante la primera mitad del vigésimo siglo, también se destacaron instituciones de ese tipo, que resultaron impulsadas por el teatro, la música de cabaret y los night club, donde descollaron figuras importantísimas como Pepe Serna, René Rivero, Estela la rumbera, Eusebia Cosme, Meche Lafayette…, por citar algunos.
En cambio, no de personas, sino de ritmos es de lo que vamos a hablar, aunque el tiro de “enganche” fueran los mencionados productos televisivos y las Academias de Baile, porque ambos tenían un punto de contacto: oxigenar nuestras expresiones danzarias, que tanto han hecho bailar al mundo.
El fenómeno es cultural, porque Cuba supo desprenderse muy pronto de los moldes europeos desde que apareció el danzón (incluso un poco antes), y ya nadie quería acordarse de la contradanza, el vals o aquellas coreografías venidas del Viejo Mundo, que quedaron confinadas a alguna que otra fiestecita de elite o en los salones almidonados de regia construcción.
Nosotros pedíamos un género más tropical, que se ajustara a las exigencias de nuestra negriblanca cultura. Y el matancero Miguel Faílde nos regaló “Las alturas de Simpson”, el danzón que abrió las puertas a lo nacional dentro del quehacer músico-danzario.
Desde luego, la sociedad “puritana” de aquellos tiempos criticó escandalizada la innovación, y protestó contra lo que consideraba “música de mala fama”, por su oriundez popular y criolla. ¿Qué de novedoso aportaba el baile? La doctora Bárbara Balbuena, especialista en danza folclórica, argumenta:
“Los movimientos corporales y espaciales de este nuevo género fueron más lentos, cadenciosos y de mayor libertad creativa que los anteriores, lo cual denota el proceso de transformación estilística que sufrió el baile de salón cubano desde la contradanza, pasando por la danza, al danzón (de donde toma su nombre). En la actualidad se considera el baile nacional de Cuba, ya que desde la fecha en que se creó, con más o menos variaciones, se mantiene con vigencia entre determinados núcleos de personas”.

Muy pocos lo bailan hoy día, pero el danzón sonó, ¡y mucho! Prestigiosas figuras como José Urfé, Antonio María Romeu, Pablo y Raimundo Valenzuela se encargaron de sostenerlo por buen tiempo.
Etiel Faílde, tataranieto de Miguel, rescata el género, y lo revitaliza con aires más contemporáneos, sin que traicione la esencia, y ha sido aplaudido no solo en nuestra Isla, sino en otras regiones caribeñas, México y los Estados Unidos, aunque hay otros países más.
Pero no solo el danzón se consagró en el siglo XIX, período que marca el surgimiento de una conciencia nacional. También es la época cuando aparece en la zona occidental del país el complejo de la rumba con sus variantes de yambú, columbia y guaguancó (algunos estudiosos agregan la jiribilla y las rumbas de tiempo de España). Esta modalidad, de manera muy similar al danzón, fue considerada al principio “baile de negros”, cosa de “gente de orilla”, hasta que en 1931 se posicionó en los salones de la “alta sociedad” y se universalizó como bien manda.

Hoy el complejo de la rumba forma parte del Patrimonio Inmaterial de la Humanidad, que le concedió la Unesco. Rumberos celebérrimos de talla universal fueron Ignacio Piñeiro, Chano Pozo y Benny Moré; y entre las agrupaciones contemporáneas que ponen en alto el género están Clave y Guaguancó, Los Muñequitos de Matanzas, Osain del Monte, Rumbatá y hasta un conjunto juvenil de extraordinaria calidad interpretativa: Timbalaye. Son solo estos algunos ejemplos.
Como música síntesis de lo europeo y lo africano, el complejo de la rumba acepta múltiples maneras de decir, y lo mismo puedes escuchar en tono de guaguancó una canción infantil que la más elaborada composición trovadoresca; pues, insistimos, el género lo admite todo.
Igual de sincrético es el son, otra de las expresiones más difundidas en el país y que, del mismo modo, fue tildado de lascivo e irrespetuoso en sus inicios.
“El son llegó a ser prohibido —explica el etnólogo Rogelio Martínez Furé en su obligada obra Diálogos imaginarios— , pero las capas populares continuaron disfrutando sus ritmos.
“No se bailaba en las sociedades blancas por considerarse ‘cosa de negros’, ni en las de negros finos, por mimetismo (…). Pero, poco a poco, su ‘sabrosura’ fue derribando barreras sociales. Hasta que finalmente penetró en los salones de blancos, y mucho tiempo después en las sociedades negras”.
Para algunos estudiosos, el son es el exponente sonoro más sincrético de la identidad nacional y se da de diversas maneras, de acuerdo con la región. Por ejemplo, en Guantánamo se impuso el changüí; en la Isla de la Juventud, el sucu-sucu; mientras que la capital desarrolló el son habanero.
“Desde el punto de vista coreográfico, el son se baila en parejas enlazadas, bien unidas y con movimientos de torso y caderas acentuados —nos dice la doctora Balbuena— . La mujer puede hacer vueltas alrededor del hombre, el hombre lucirse con movimientos como el tornillo, en fin, figuras de gran destreza”.
Y es que en Cuba la música y la danza se dan así de fácil, por lo que sería inacabable enumerar la cantidad de ritmos que han proliferado en esta Isla tan alegre: chachachá, mambo, mozambique, pilón… (¡ufff!).
Para rematar, hacia 1956, una sociedad de blancos que solía coincidir en el Club Casino Deportivo (hoy Círculo Social Obrero Cristino Naranjo), puso de moda la utilización del son urbano con otros géneros o modalidades de la música popular que estaban en boga. A esta innovación se llamó rueda de casino.
El hecho creativo prendió en el gusto de la juventud y fue imitado por los bailadores de otros clubes náuticos de la playa, y sociedades capitalinas: nació así el baile de casino.
Lo que en principio fueron “pasillos” organizados entre círculos de amigos, se convirtió en danza de parejas independientes, con nuevos diseños, figuras, vueltas y direcciones.
“El casino surge en un ambiente de integración de géneros, variantes o modalidades que gozaban de gran reputación en el pueblo —continúa nuestra especialista entrevistada— y, a diferencia de los bailes de salón que le antecedieron, no se le atribuye un género musical específico.
“Son muchos los factores que han influido en el apogeo del casino en Cuba y en el exterior —concluye Balbuena—, pero entre los más importantes está la dimensión que ha tomado la música salsa en el ámbito internacional. Identificado como baile de salsa cubano, se ha convertido el casino en el vehículo idóneo para disfrutar esta manera de hacer música, hecho nada paradójico si tenemos en cuenta que en ambas manifestaciones coincide el son cubano como elemento de origen”.
Son, salsa, casino, rumba…, no cabe la menor duda (y así lo corroboran los estudiosos del tema), forman parte de la evolución “sin color” de la forma de tocar y danzar en Cuba. Se han internacionalizado, eso sí, pero a nosotros nos corresponde el privilegio de haber sembrado la semilla, para poner a bailar al mundo con esos ritmos pegajosos que nos caracterizan.


domingo, 14 de febrero de 2021

¡Adios, Bebo!

Por: Ramón Torres

La pérdida de un líder político suele repercutir de manera agigantada en los medios de comunicación masiva; pues, no sin razón, esas personalidades generalmente pertenecen al grupo que detenta el poder hegemónico, o al menos, al contrapoder.
Lo mismo sucede con las figuras de la farándula: artistas, gente exitosa, deportistas de prestigio internacional. Pero no siempre ocurre igual con los líderes religiosos, sobre todo, cuando forman parte de los llamados sectores populares o “culturas subalternas”. Esto es: no tiene la misma cobertura la desaparición física de un Papa, que la de un personaje ilustre y hasta “mágico” de una nación africana: se evidencia a las claras que los “mass medias” favorecen casi siempre a las instituciones “debidamente” posicionadas.
Sin embargo, la desaparición física este sábado 13 de febrero del sacerdote Ángel Custodio Padrón Cárdenas (Bebo Padrón, 1928-2021), ha impactado a la comunidad religiosa de matriz africana en Cuba y en el exterior. Bebo había vivido intensamente (contaba noventa y tres años de edad en el momento de su deceso), pero siempre uno creyó poderlo tener más tiempo; eso sin contar que vivirá eternamente en el corazón de sus seguidores.

Bebo es, lo que se pudiera decir, ejemplo de ecumenismo, era Baba Ejiogbe, miembro del grupo gestor y fundador de la Asociación Cultural Yoruba de Cuba, el más anciano del Consejo de Sacerdotes Mayores de Ifá encargados de vaticinar la Letra del año, consagrado masón (fundador de su propia logia) y Mokongo de la potencia abakuá Efí Eroko Enyuao.
Sus hermanos de cada cuerpo institucional le rindieron los más merecidos tributos tras su partida, pero también representantes del Departamento de Asuntos Religiosos del Comité Central del Partido Comunista de Cuba y otras entidades, como muestra de que Bebo era un genuino representante popular muy bien establecido a cualquier nivel social, prestigio ganado sin desligarse de la base que lo catapultó.

viernes, 12 de febrero de 2021

El puerto habanero, un emporio de matriz carabalí

Por: Ramón Torres

En su esclarecedora obra, “Contribución a la Historia de la gente sin historia. Cimarrones, propietarios y morenos libres”, nos dice Pedro Deschamps Chapeaux:
“A lo largo de la historia del puerto de La Habana, el negro ha sido el principal elemento en la fuerza laboral empleada en la monta y descarga de las mercancías y ésta es una constante que, partiendo desde la época colonial, se adentra en la república enlazando dos etapas que, pese a la distancia en el tiempo, se presentan con caracteres propios, únicos, invariables.
“Ayer, y aún hoy, la vida económica de los barrios aledaños al litoral habanero, dependía en gran parte del comercio marítimo. El alza o baja de su volumen era el barómetro que reflejaba la verdadera situación de los viejos barrios de Belén, Jesús María, Campeche y otros, donde la población negra representaba un elevado porcentaje” (2013, 23).
En la página siguiente, todavía es más específico Deschamps en torno a la etnicidad:
“Entre la gran masa de la población de color, que concurría a los muelles en demanda de un jornal, sobresalían los carabalís, que por décadas mantuvieron la supremacía. Capataces y jefes de cuadrillas, pertenecían a esta nación africana, que en 1836 fundara la sociedad secreta Abakuá, integrada por los denominados carabalís apapá, que convierten el litoral habanero en zona de su influencia, dando origen a una tradición que se mantuvo con todo vigor hasta la gran transformación realizada por la Revolución a las condiciones imperantes en este importante centro laboral” (ob. cit., 24).
Otro texto del citado autor nos dice que “El trabajo portuario, aunque sujeto a los vaivenes de comercio de importación y exportación, propició, dentro de los capataces, el surgimiento de un grupo de cierta solvencia económica, en el que se destacaban los ya citados carabalíes” (1971, 93).
Esta situación en el puerto habanero es sintomática, porque nos permite visualizar cómo se establecen redes de protección, solidaridad y reserva entre determinados grupos considerados “subarternos” que durante un largo período dominaron las actividades del sector, favoreciendo la entrada de miembros de entidades carabalí/abakuá en detrimento de otros que, si bien no de manera absoluta, les resultaba más difícil la contratación como estibadores o braceros en los muelles.
De cualquier manera, no hemos de llamarnos al engaño, pues existían también diferenciaciones políticas, clasistas y racistas, que limitaban el ejercicio de diversas labores en correspondencia con el origen y la condición social, lo cual contribuyó a que se generaran ciertos celos, arbitrariedades y abuso del poder.
Por ejemplo, desde 1763 se establecieron por Real Orden las disposiciones que regían el trabajo portuario que privilegiaba a los pardos y morenos pertenecientes a los batallones de las Milicias Disciplinadas de La Habana, en servicio o retirados, quienes podían desempeñarse como jornaleros en las labores de carga y descarga; sin embargo, les estaba negada la tarea de estiba a bordo de los buques, fijadas solo para personas blancas o, en su defecto, algunos de color que estuvieran debidamente registrados.
Naturalmente, tales medidas estimulaban rivalidades entre unos u otros, toda vez que no significaba lo mismo ser esclavo contratado que un liberado, como tampoco era igual mirado un libre sin apellido que un miembro de las Milicias, mucho menos un negro o mestizo que un blanco. Y aunque las Milicias de Pardos y Morenos leales a España fueron desactivadas hacia la década de 1840, la manera discriminatoria de contratación en el puerto se extendió a lo largo de todo el siglo XIX.
Se sabe que para la segunda mitad del decimonónico irrumpió también en los muelles una numerosa cantidad de asiáticos “contratados” por España, debido a la insistente persecución de Francia e Inglaterra al tráfico negrero. Estos asiáticos, desde luego, entraron en conflicto a la vez que “coqueteo” con los carabalíes, en una pugna por el poder dentro del sector que llevó a muchos chino/filipinos a iniciarse en las religiones de matriz africana y, de esta manera, establecer relaciones de parentesco religioso que les garantizaba seguridad en el empleo.
Cuando cesa la dominación española en Cuba (1898) el puerto habanero ya descollaba por su importancia económica y mercantil. No debe extrañar, entonces, que afluyeran para la época considerables inversiones estadounidenses con el objetivo de disputarse la administración de los distintos muelles que florecieron en aquella etapa. Pero la esencia de acceder al empleo se mantuvo.
Si nos atenemos a lo suscrito por diferentes documentos de que “predominaban los afiliados a las diferentes potencias o sociedades ñáñigas o abakuá en el muelle” (Rivero Muñiz, Deschams, López Valdés), podríamos aventurar que, si bien no como entidad, al menos como gremio los abakuá se vieron involucrados en una serie de protestas en demanda de mejores condiciones y una justa remuneración.
El artículo “La lucha obrera portuaria contra la subasta, la venta del número y “el caballo”, publicado en Granma, asegura que en 1999 “se creó el Gremio de Estibadores y Jornaleros de la Bahía de La Habana”; en cambio, parece que esta organización se había gestado un año antes, a juzgar por el reclamo de los propios protagonistas, quienes en un documento de 1949 manifestaban:
“Nuestro Sindicato de Estibadores y Jornaleros de la Bahía de la Habana, que fuera fundado el 20 de mayo de 1898, ha jugado como tal durante todo el tiempo de su existencia un rol de vanguardia de la gran familia portuaria. En distintas ocasiones se ha enfrentado a poderosos enemigos. Ha franqueado innumerables obstáculos puestos en su camino y ha vencido en numerosas batallas a los que siempre se han impuesto en su camino de lucha por la defensa de las mejoras de sus miembros, así como por el establecimiento de un sistema más equitativo y más decoroso, más humano para todos los pobres del mundo”.
Por lo que puede leerse en el párrafo anterior, ya existía una sólida conciencia de clase en el sector marítimo portuario entrada la República, e insistimos en la posición mayoritaria entre los iniciados abakuá; por tanto, su compromiso tendría que ser visible en torno a la toma de partido. Es lo que descubrió Rafael López Valdés en ese sentido.
“’Para poder conseguir trabajo había que ser/ Abakuá’, y esta frase es altamente expresiva de una realidad que tuvo profundas implicaciones en el desarrollo mismo del Abakuá como institución.
De este modo, aunque había miembros de distintos juegos trabajando en el mismo muelle, como sucedía en la zona 2 (…), siempre alguno se destacaba por tener mayor número de miembros. Así, en el muelle de la Harry Brother, después de la Vaccaro), hacia la primera década de la República, la potencia con mayor número de miembros entre los braceros era Equereguá Momí; en la Havana Dock: Urianabón y Betongó, la primera del barrio de Colón y la segunda de Pueblo Nuevo; en la Ward Line: Kanfioró, Bakokó y Enyegueyé; en la Flota Blanca: Otán Efó; en Tallapiedra: Equeregué e Ibondá; y así en cada una de las Empresas. Claro está, el número de miembros de una potencia en un muelle estaba en razón directa con la posición que ocupaban miembros de la misma y viceversa, por lo cual hubo infinidad de viariaciones en las proporciones que citamos, entendiéndose que los juegos enumerados fueron los de mayor número de miembros en cada muelle, en un momento determinado” (Valdés, 1966, 14-15).
Está debidamente documentado cómo la pertenencia a determinado barrio, a la vez que a determinado juego abakuá, podría ser causa de establecimiento de relaciones amistosas o tirantes entre los miembros de la entidad (ver Torres, R. y López, R.). Se sabe que a inicios del siglo XX se intentó incluso blanquear el poblado de Regla y que miembros de Enyegueyé Efó contribuyeron a romper la huelga que los portuarios de la Bahía de La Habana sostenían en 1912 en demanda de mejoras laborales.
Afirman las fuentes que el Iyamba de Enyegueyé, Chuchú Capaz, intermediario de la Ward Line habló con su administrador Mr. Smith para resolver el conflicto, trayendo a reglanos que llegaron en lanchas eludiendo así “el choque con los trabajadores que se hallaban del lado de afuera de la reja que daba acceso al muelle, en donde la policía les impedía la entrada” (López, 1966, 17).
Chuchú, que pertenecía a la genealogía de juegos integrados por personas de piel blanca a partir de Acanarán Efó, hizo carrera política mientras pudo, pero al caer la dictadura machadista perdió las posiciones que había alcanzado y pidió su liberación de los muelles. De cualquier modo, había acumulado cierto dinerito y se dedicó a un “trabajo independiente” enseñando el ritual abakuá, pues se dice que era un erudito en esos temas. No se pueden separar esas actitudes del contexto.

Se tiene noticia también de Blas Pérez Rojas (Blasito), plaza de Otán Efó (de Regla), quien comenzó en el puerto desde “abajo” y llegó a contratista de la Flota Blanca, una de las de mayor movimiento; en cambio, ya en ese puesto, aunque compartía alguna que otra bebida con obreros de su confianza, igual que Chuchú, no dejó de utilizarlos en su beneficio, de explotarlos y de contribuir como rompehuelgas.
Tras la aprobación de la Ley del Control de Estibadores en 1942, el propio Blasito se sintió amenazado y emitió un manifiesto del cual tomados una cita de López Valdés
“(…) se apelaba a los intereses personales de los trabajadores de Regla, bajo su dependencia, con el fin de enfrentarlos a la masa obrera que pedía el Control como una solución a su inestabilidad, invocándose también el carácter localista de los reglanos. De nada le valió la publicación de tales argumentos. La batalla estaba perdida para ello” (López, 1966, 23).
Con la llegada de Aracelio Iglesias como líder indiscutible del sindicato portuario cambió el panorama, pero resultó baleado por gente vendida a los empresarios. No obstante, los muelles habaneros y su manera de contratar nunca volvieron a ser como antes.
De cualquier modo, lo que sí está claro es que la presencia abakuá en el lugar sigue siendo poderosa incluso en pleno siglo XXI. Los miembros de la entidad no han dejado de sentir suyo ese espacio, donde sus padres, sus abuelos y sus antecesores supieron hacer “carrera” de la mejor manera que aprendieron: trabajando para buscar el sustento.
De hecho, una de las fechas importantes de la hermandad lo constituye el 4 de marzo, día que se comemora la explosión de La Coubre en 1960, donde murió un numeroso grupo de iniciados que laboraban en las acciones de descarga en el puerto habanero. Pero esa es promesa para un venidero trabajo.
Fuentes:
Deschamps Chapeaux, Pedro. Contribución a la Historia de la gente sin historia. Cimarrones, propietarios y morenos libres. Ed. Ciencias Sociales, La Habana, 2013.
------------ El negro en la economía habanera del siglo XIX. Uneac. La Habana, abril de 1971.
Hevia Lanier, Oilda. “La Sociedad Secreta Abakuá: una organización del entorno portuario de La Habana y Matanzas del siglo XIX”. En Cuba y sus puertos (siglos XV al XXI). Ed. Historia, 2005.
López Valdés, Rafael L. “La Sociedad Secreta ‘Abakuá’ en un Grupo de Obreros Portuaros”. En Etnología y Folklore. No. 2, año 1966.
Rivero Muñiz, José. El movimiento obrero durante la primera intervención. La Habana, 1961.
Torres, Ramón. Relación barrio-juego abakuá en la ciudad de La Habana. Ed. Fuente Viva. La Habana, 2010.